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sábado, 21 de julho de 2012

Dia de Renovação - Em Cordel

[Veja nosso artigo sobre as renovações na nossa cidade em As Renovações do Sagrado Coração de Jesus em Caririaçu]


                                                                                                           [Por Evanio Sales]
Chegano a Renovação
o sertanejo de fé
convida os amigos tudo
homi, minino e muié:
- Vá pra reza lá de casa,
pra nóis tomar o café!

E a muié sempre comenta
do rebuliço que dá,
os dias que antecede
o dia mermo de rezá:
 - Muié, só tu mermo veno
como lá em casa tá!

O homi espanô as têia,
tirô as brexa que tinha,
derrubô os cupim tudo,
deixô as linha limpinha.
[...] - E a camadre já aguniada
diz assim: - Vixe Maria!

Mas a muié nem percebeu
que ela queria era atrapaiá
e continuou tagarelando
parou nem pra respirar:

[...]Tapô os buraco das parede,
incimetô os portá,
deixô tudo no jeito
pra depois pudê caiá.
Ói, nem vô dizer mais nada
já dá pra tu imaginar.
tá uma bagunça danada
sei nem por onde começar,
se é por cima ou se é por baixo,
sei que vou ter que arrumá.

Quando chega o grande dia,
ance do galo cantar,
a mãe já agoniada
manda tudim levantá,
divide logo os siviço
que é pra ninguém se escorá.

Os minino fica com a água,
na cacimba vai buscar.
vão logo atráz do jumento,
que é pra puder encangaiá.
- Pega ali as ancoreta de baixo do pé de juá!
Óia, eu vou cuspir no chão
e quando o cuspe secar
já é pra vocês tá de volta
incheno as vazia tudo,
um pé lá e outro cá!

As menina presta atenção,
só vou dizer uma vez,
vocês vão varrer o terreiro
e cuidar dos mais pequeno
esse é o serviço de vocês.

É peleja o dia todo
pra deixar tudo no jeito
revira a casa, limpa tudo
do avesso ao direito
faz comida das melhor
tem que ser tudo perfeito.

As horas vão passando
o povo começa chegar
os mais próximos vem mais cedo
que é pra puder jantar.
Vem  amigo e vem  família
e quem num precisa chamar.

- Olhe! Diz o anfitrião,
- A rezadeira chegô!
Chegô também foi a hora
quero que faça silencio
quem for fica ai fora,
quem for rezar entre logo
que a reza vai ser agora.

Entre um bendito e outro
vem sempre uma oração,
estoura um fogo lá fora:
- Viva ao Sagrado Coração!
Viva também ao Padim Ciço,
Nossa Senhora e São José
E o povo gritando - Viva!
aplaude com muita fé.
Mas pra fazer gaiateza,
como alguem que nada quer,
lá de fora berra um gaiato:
- Viva ao bolo e o café!

E assim termina a reza
vem a hora do café
mas é tudo organizado
primeiro é a vez das muié.

Depois o dono da casa
sai gritando nos terreiro
- Quem for homi pode entrar,
e os minino é derradeiro!

Mas os homi incabulado
vão entrando de pouquim.
Entre uma mesada e outra
tem que adular quem num que vim.
Daquela ruma de gente
num dá pra chamar o nome
então o jeito é sair gritando
- Pode entrar o resto dos homi!

Quando entra os minino
é que a farra se completa
o cafezeiro logo grita
- Agora começa a festa!
Pode logo enchendo os bulhe
e completando as vazia
que esses minino come,
se deixar, até o outro dia.

E num é mentira não
a mininada é presepera
vai fazendo repeteco
quer comer a noite inteira

Entre um gole do café
e uma bolacha na boca,
um punhado vai nos bolso
que estão por toda a roupa.

Óia é caso de polícia
as ropa desses minino.
É boço por todo canto
desafia as lei da física
tem gente que ignora
chama logo de mundiça
outros dão é gargalhada:
- Eita minino artista!

E assim acaba tudo
todo mundo vai indo embora
e as muié tudo dizendo:
- Comade, inté ôta hora.
Essa frase é conhecida
muita gente desaprova
diz que é só pra vê se ganha
um agradim desta senhora.
Eu mermo não sei de nada 
mas tem gente que ignora
diz que muitas fica ali
se senta e até se escora
faz de tudo, vira a gota
e num quer ir lá pra fora
só sai quando leva junto
o desjejum que quase implora.
Ôxe, e fica agoniada
quando a comade demora
e enquanto não consegue
volta e meia ela repete:
- Comade, inté ôta hora!

A renovação representa
a cumplicidade que há
entre a religiosidade do povo
e a cultura popular.
não poderia ser contada
de nenhuma outra maneira
tinha que ser com o verso
como que em brincadeira.

Mas poeta não sou ainda
e talvez nunca vou ser
estou aqui improvisando
e é você quem vai dizer:
Eu possuo algum talento,
ou é melhor esquecer?!


terça-feira, 27 de março de 2012

As Renovações do Sagrado Coração de Jesus em Caririaçu

[Veja a como é a preparação e o ato da renovação em Dia de Renovação - Em Cordel]


Incentivada pelo Pe. Cícero Romão Batista, a Consagração das Famílias ao Sagrado Coração de Jesus ou simplesmente a "Renovação", é uma das tantas demonstrações da fé e religiosidade do povo do interior do Nordeste e, em especial, da região do Cariri, no sul cearense.

Na sua simplicidade, essas pessoas mantêm em destaque na sala de entrada das suas casas, a qual dão o nome de "sala do santo", um altar com as imagens dos Corações de Jesus e de Maria pregados na parede, além de várias outras imagens dos seus santos de devoção em volta e, logo abaixo, uma mesinha, e sobre ela, estátuas, castiçais e jarros de flores. É neste cômodo, "aos pés do santo" (como se diz por aqui), que todos se reúnem para a celebração da renovação.

Essa, por sua vez, representa a renovação do compromisso das famílias com a fé nas promessas de Jesus, prometidas à francesa Santa Margarida Maria Alacoque, das quais uma delas é um anuncio de que seriam abençoadas as casas em que se achasse exposta e venerada a imagem do seu Sagrado Coração. Por outro lado, ela traz consigo a oportunidade de reunir a maioria dos amigos e familiares, coisa muito rara, e isso faz com que, assim como natal e Ano Novo, por exemplo, esta seja uma data capaz de mesclar diferentes emoções como a alegria dos reencontros e a satisfação, ou simples prazer, de ver a "casa cheia" e se ver rodeado pelas pessoas de quem se gosta.

Em Caririaçu, em especial na zona rural, a preparação para a renovação se dá por boa parte do ano, mas só se intensifica nas vésperas da data prevista, cerca de duas ou três semanas antes. Neste período se inicia as reformas das residências, a troca de móveis e aquisição de tudo que venha a ser necessário até a hora do ensejo.

A "Reza", como também é chamada, é realizada todos os anos no aniversário de matrimônio dos chefes da família ou numa data próxima, frequentemente à noite. Este é um dia muito movimentado, são convidadas mulheres da família ou vizinhas para ajudar na arrumação da casa e na feitura da comida, pois, precisa-se que esteja tudo pronto até à tardinha, quando chegam os amigos e familiares mais próximos para o jantar que é servido algumas horas antes do início da renovação.

As orações, porém, só são iniciadas com a presença da "rezadeira". Ela é a responsável por "tirar a reza”, ou seja, auxiliada pelo seu livrinho, é ela quem conduz as orações e benditos da consagração, sempre os professando com muita ênfase e em voz alta, continuamente acompanhada, principalmente na hora dos benditos, pelas pessoas que se encontram na sala.

Terminado o ato religioso, é feita uma queima de fogos e, logo após, vem a hora do "café", onde é servido um lanche tradicional, no qual se pode escolher entre chá (geralmente de ervas como o capim santo ou erva cidreira), ou café, e mais alguns petiscos que podem ser bolos, como o famoso Bolo de Puba¹, Sequilhos² ou biscoitos.

Em nossa cidade, esse costume vem passando de geração a geração, com algumas mudanças, é claro, sofisticações das novas eras, talvez até com menos ânimo, mas enfim, devo dizer que, a muito, deixou de ser apenas uma expressão de religiosidade e, pela persistência, passou a ser também uma expressão de cultura.

O certo é que o passar do tempo trousse consigo muitas mudanças, as velhas tradições aos poucos deixaram de ser indispensáveis e deram lugar a novas práticas, o que mudou a cara da ocasião. 

Conversando com populares da nossa cidade identificamos várias destas transformações. Segundo eles  as "rezas" de antigamente eram muito boas e diferentes das de hoje, e citam varias das alterações nos velhos hábitos, alguns destes, comuns à maioria das famílias, como é o caso dos fogos, que anunciavam o início e o fim da "reza" a toda vizinhança e que hoje quase não se escuta mais. Outro som, o das Bandas Cabaçáis, que tem na essência fortes ligações com as renovações, e que comumente tocavam os seus "baiões" para animá-las e venerar o Sagrado Coração, quase não ecoa mais e por isso, estão possivelmente fadadas a desaparecerem, se não for tomada nenhuma atitude para resgatar esse, que é um símbolo da cultura popular, não só da nossa terra, mas do Nordeste como um todo.

Algumas outras famílias cultivavam outros costumes, estes mais particulares, com o simples proposito de incrementar ainda mais a sua festa, como é o de soltar balões. Outras ainda chagavam a realizar até pequenos leilões populares nas suas casas.

Em épocas de escassez de chuva, como forma de "pressionar" ao São José, as pessoas levavam a imagem do santo da casa de um vizinho às escondidas e só a devolvia no dia da renovação ou quando a chuva viesse. Caída a chuva, em agradecimento ao santo era ornamentado um andor com muitas flores e então ele era levado de volta, em procissão e com muita festa.

A consagração ao Sagrado Coração de Jesus, renovação ou "reza", como queiram, é um elo entre a religiosidade e a cultura popular, e como tal, enfrenta dias de baixa, de quase esquecimento. As modernidades a muito vem interferindo na sua preservação, na preservação da nossa identidade cultural. Ela é a expressão da nossa fé, das nossas crenças, da nossa religiosidade. É expressão da nossa cultura, que é a nossa cara, a nossa identidade. Não deixemos que nos mate!





¹PUBA: é uma massa feita de mandioca fermentada, muito usada no Nordeste para fazer bolo; 
²SEQUILHO: Biscoito feito de goma de mandioca muito consumido no Nordeste.

Fontes bibliográficas: http://www.educared.org/
                                    http://gororobacomcardamomo.wordpress.com
                                    http://www.nordesterural.com.br/